Na manhã do dia seguinte resistiu para não ir à empresa. Não ia voltar a mostrar o Bilhete de Identidade aqueles dois novos da portaria e vigilância e dizer quem queria visitar. Um homem tem a sua vaidade, martelava em pensamento. Ou seria que ele estava a ficar teimoso, agora que caminhava para velho?... E estaria mesmo a caminhar para velho ou já seria velho? Ao fim e ao cabo não era o que “eles” - o engenheiro e os outros mandões lá da empresa - tinham achado ao levá-lo a reformar-se? Velho? Não, rebelava-se contra a ideia. Sentia-se cheio de força e de vitalidade e, se não estava naquele momento a trabalhar em forte e a dar o melhor de si, era por um conjunto de circunstâncias que não tinham nada a ver com ele ser velho ou não. Mas, agora que a reforma estava consumada, o que ele mais tinha a fazer era cuidar da vida dele e gozar o tempo livre de que dispunha enquanto se sentia com vigor. Com esta disposição saiu de casa. Havia de gozar a vida!
Durante toda a manhã percorreu as ruas sem fim, entrou em lojas, supermercados e centros comerciais, mirou coisas, remirou novidades comerciais, ouviu preços. Depois, almoçou num restaurante que oferecia na ementa, pendurada à porta, bacalhau à lagareiro com batatas a murro, que era um dos seus pratos favoritos. O bacalhau estava bom, regado com um azeite fino, acompanhado por uma salada verde e fresca, e o empregado do restaurante era amável e solícito. Mas a falta de companhia não lhe deixava sentir todo o sabor do bacalhau. Lançava, a míudo, olhares fugidios aos outros clientes do restaurante, meia dúzia de mesas apinhadas de pessoas que conversavam ruidosamente, enquanto comiam, atirando gargalhadas que estralejavam no ar como foguetes.
Depois do almoço sentiu-se pesado e apeteceu-lhe ficar um pouco a pensar na vida e nas coisas que iria fazer. Junto ao restaurante ficava um jardinzinho pequeno, salpicado de canteiros de flores coloridas e de relva muito verde e aparada, ainda húmida da última rega. O jardim não tinha mais que três ou quatro bancos compridos, todos ocupados. Cardoso sentou-se num, ao lado de um velhote trémulo que apoiava as duas mãos numa bengala e olhava em frente, fixamente, com olhos desmaiados e aquosos. No banco ao lado, duas mulheres gordas, vestidas de preto, tagarelavam com animação, a mexer agulhas e linhas que manobravam com dedos diligentes e nervosos, num movimento incessante, criando arabescos de renda. As duas mulheres tinham puxado as meias pretas para baixo, até aos tornozelos, destapando as pernas inchadas e muito brancas, raiadas de varizes azuladas, que estendiam ao sol e esfregavam, de vez em quando, com gestos demorados.
O velhote, ao lado de Cardoso, virou lentamente a cabeça para o companheiro de banco de jardim. Nos olhos desmaiados acendeu-se, por instantes, uma luz fugaz, e ele murmurou, mastigando devagar as palavras:
«Está também a aproveitar este solzinho?!...»
Cardoso olhou-o de revés, incomodado, mas, por educação, fez um esforço e sorriu com uma migalha de simpatia. Está também a aproveitar este solzinho?!... A pergunta do velho picava-lhe no peito como o ferrão de um insecto traiçoeiro. Que ideia aquela!... Como se ele, um homem activo, em plena meia idade, não tivesse mais nada para fazer que aproveitar o calor do sol, num banco de jardim, como um moribundo qualquer já com os pés para a cova... Levantou-se e atravessou o jardim, passando junto às mulheres de preto que faziam renda e a um par de namorados que tinha mergulhado num beijo infinito e profundo.
No outro lado do jardim, a confinar com uma rua calma e solitária, três ou quatro miúdos, aí de uns doze ou treze anos, divertiam-se com uma bola que atiravam uns aos outros com algazarra e alarido. As risadas dos gaiatos, as maçãs do rosto afogueadas pela brincadeira, as pernas ágeis e sem cansaços, funcionaram como um bálsamo para aquele descontentamento incomodativo que o velhote, sem querer, fizera nascer em Cardoso. Sentou-se ali mesmo, num tronco de árvore caído à beira de um canteiro de ervilhas de cheiro que exalava um aroma forte e penetrante. Ficou a seguir, com os olhos, as curvas em arco que a bola descrevia no ar, pontapeada pelos ténis gastos dos rapazes. A determinada altura, a bola sumiu-se, sem dúvida atirada longe demais por um pontapé demasiadamente forte. Um dos miúdos correu à procura da bola e regressou, instantes depois, a bola agitada entre as duas mãos, um grito de alerta na voz:
«Eh, pá, vamos embora que vem aí o polícia e ele quer ficar-nos com a bola.»
Lestos, os outros miúdos trataram de correr e sumiram-se pelo outro lado do jardim. O que tinha a bola ainda ficou uns segundos a olhar para um e outro lado. Mas, ao avistar a figura fardada do polícia que se aproximava, saltou, de um pulo, até perto de Cardoso e atirou-lhe, juntamente com a bola:
«Ó tiozinho, guarde-nos aí a bola, senão o polícia apanha-a.»
Os olhos do rapaz tinham a cor quente do mel e da juventude e Cardoso escondeu-lhe a bola com satisfação, apertando-a entre as pernas e o tronco de árvore onde se sentava, e sentindo um secreto prazer pela cumplicidade com os miúdos.
O polícia passou, em passos vagarosos, as mãos atrás das costas, muito hirto e sorumbático, olhando por baixo, e perdeu-se para lá do jardim, numa curva da rua. Cardoso pegou na bola, soprou a terra que se lhe tinha colado e que a sujava e ficou a rodá-la entre as mãos, esperando os miúdos.
Parecia, no entanto, que esses se tinham evaporado. Cardoso viu o par de namorados levantar-se, sem nunca afrouxarem o abraço apertado que os unia, e seguirem rua abaixo, alheios ao mundo que os rodeava e a outro pulsar que não fosse o deles. Viu as duas mulheres de preto embrulharem as rendas, delicadamente, em panos brancos, puxarem as meias para cima e levantar-se do banco onde se sentavam. Viu chegar uma mãe jovem que carregava nos braços um saco pesado e uma menina pequena mas que parecia igualmente pesada; a jovem mãe aproveitou um dos bancos do jardim para descansar um instante, ajeitou a roupa enrodilhada da menina e logo seguiu caminho.
Cardoso decidiu não esperar mais pelos miúdos, agachou a bola junto ao tronco, pôs-lhe por cima um ramo caído de um arbusto, e deixou o jardim onde o velhote trémulo continuava, com olhos fixos e perdidos, a olhar em frente.
Pelo caminho até casa foi meditando nas várias tarefas a que queria deitar mãos nos dias mais próximos. Uma - ia ser cá uma surpresa e uma alegria para a mulher!... - era uma bancada em madeira para colocar na varanda, onde ela pudesse pôr os vasos com as flores de que tanto gostava. Coisas de mulheres! Enfim, tanto e há tanto tempo que ela lhe vinha pedindo para ele lhe fazer aquilo e nunca tinha tido tempo nem disposição. Ia ser agora. A outra coisa - essa era uma surpresa para a neta pequenita -, com os bocados de madeira que sobrassem, ia fazer-lhe uma casinha de bonecas, com “portas, janelas, telhado e tudo”, como ela lhe tinha um dia pedido.
Mais desanuviado e leve, meteu as mãos nos bolsos, assobiou baixinho e pôs-se a caminho de casa.
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em janeiro 3, 2004 02:40 PMVenha a continuação que estou a gostar.
Um abração do
Zecatelhado
:-)
(L)